
Because Zombies
A História
Honda Celebration of Light, a noite em que Portugal subia ao palco. O festival anual de fogos de artifício de Vancouver lota o litoral do West End além da capacidade. Gente até onde o olho alcança. A multidão se aglomera horas antes de escurecer pra reivindicar um pedacinho de grama.
Eu também tinha chegado cedo. Sol radiante, nem uma nuvem no céu, aquele tipo de luz que promete pôr do sol limpo e cumpre a promessa. A multidão já tinha o tamanho de um pequeno carnaval. Gente sentada em toalhas, em bolsas, na grama, uns em cima dos outros. Nem um lugar livre. O resto de nós improvisando. Um pedaço de meio-fio, um pedaço de madeira à deriva, uns centímetros quadrados de gramado sem dono.
Andei pra oeste, em direção à parte do calçadão onde a trilha começa a entrar no Stanley Park. A multidão ralava só o suficiente ali, e achei um pedacinho de grama aberto. Cansado àquela altura. A tarde tinha sido muito sol e muita gente. Sentei. A câmera ainda na mão.
Com os braços apoiados nos joelhos, fui vendo eles se moverem. Olha só o que a multidão faz num evento desse: se comporta como um organismo único. Uma colônia de formigas se movendo como o mar se move. As pessoas aqui não andam pra lugar nenhum sozinhas, na real. Vão à deriva em manadas, contra manadas, em volta dos obstáculos, e a massa inteira segue se movendo como água procurando o bueiro.
Comecei a pensar que aquilo precisava virar parte de um quadro. A unidade da massa. Ainda não sabia que tipo de quadro. Abri a tela LCD e abaixei a câmera porque isso me ajuda a enxergar quando estou disparando de baixo.
E aí, na tela: olha o que apareceu. Uma fila de silhuetas. Pretas puras. Recortadas contra o degradê do céu. O sol já tinha caído baixo o suficiente pro azul começar a engolir o céu, mas o laranja não dava o braço a torcer no horizonte. Era jogo. Atrás de cada corpo que cruzava, as cores faziam o trabalho de três refletores ao mesmo tempo. Comecei a caçar perfis.
E vinha mais um. E mais um. Oito, nove pessoas no minuto seguinte. Todas de perfil por onde eu estava sentado. Dava pra ver a forma do cabelo deles antes de qualquer outra coisa. Tem um corte circulando agora, vizinho do K-pop, que eu sempre leio como Spike Spiegel de Cowboy Bebop. Pra qualquer lado que você olhe em Vancouver tem alguém usando. Aquela noite, metade das silhuetas tinha.
Foto. Provavelmente mais de uma. A cor foi a gênese desse quadro. Preto e branco nunca entrou em campo. A razão pela qual levantei a câmera foi a luz, então a luz era o que eu tinha que preservar.
Titulei Because Zombies. Não pela referência ao horror. Era assim que aquela fila aparecia na tela LCD: uma procissão se movendo num único ritmo que ninguém tinha combinado. A luz era apocalíptica. As silhuetas eram desconhecidos andando na mesma direção na mesma velocidade. Às vezes é tudo o que a fotografia quer que você note.
Por Que Funciona
Composição
O dispositivo estrutural aqui não é uma âncora focal única. É a linha. Oito ou nove silhuetas distribuídas pela faixa horizontal central, todas de perfil, todas andando na mesma direção mais ou menos na mesma velocidade. A composição é a procissão.
O horizonte, onde a água encontra a terra distante na faixa laranja, cai bem no centro sobre a linha de simetria do eixo x. Céu em cima, água embaixo, a fila de figuras correndo pela espinha. Ative também o eixo y e a maior silhueta do quadro, a figura de cabelo cacheado perto do centro, fica mais ou menos sobre essa linha vertical do meio. A procissão está centrada mesmo quando nenhum sujeito individual está.
Duas das silhuetas menores têm a cabeça caindo perto dos pontos fortes superiores dos terços. Não são a atração principal, mas o olho ainda assim engata nelas e segue. Funcionam como pontuação ao longo da fileira.
Também tem um fluxo mais quieto se você ativa a variante da espiral áurea inferior direita. A espiral começa lá embaixo à esquerda, passa por duas figuras com as cabeças levemente viradas uma pra outra, curva pra cima até o céu, e termina na figura de vestido branco lá na ponta direita com o espaço aberto atrás dela. Você não precisa enxergar pra ela fazer o trabalho dela. O olho está fazendo essa caminhada de qualquer jeito.
Nenhum ponto forte sozinho é dono desse quadro. As figuras se distribuem mais ou menos pelas verticais da regra dos terços sem se prender a nenhuma. O olho não pousa em um único rosto. Ele caminha pela fileira, perfil por perfil, do mesmo jeito que as próprias pessoas estão caminhando. É isso que faz aquilo se ler como procissão e não como retrato.
Luz e Tom
Crepúsculo na English Bay no fim do Honda Celebration of Light. O sol tinha baixado o suficiente pra que o azul já estivesse tomando o céu, mas o laranja ainda brigava no horizonte. Essa briga, frio contra quente, é a paleta inteira. Três ou quatro faixas de cor, sem nuvens pra interromper, distância suficiente pra que o degradê pareça ter sido feito a aerógrafo.
Em pós-produção me ocorreu uma coisa. Essa é a paleta que o design oitentista usava pra sinalizar futuro. Magenta entrando em laranja, azul entrando em roxo, o degradê synthwave antes de synthwave ter um nome. Tron, Miami Vice, o néon a aerógrafo dos fliperamas, todos pintaram alguma versão disso. Quarenta anos depois o céu estava fazendo de graça. Show inteiro, gratuito, pra quem soubesse olhar.
As figuras ficam em preto puro contra tudo isso. O fim de crepúsculo mata o detalhe em qualquer coisa escura entre a câmera e o sol. Rostos, roupas, expressões, tudo subtraído. O que sobra é a forma. A cor foi a gênese desse quadro. Preto e branco nunca entrou em campo. A razão pela qual levantei a câmera foi a luz, então a luz era o que eu tinha que preservar.
Punctum
Roland Barthes de novo. O detalhe que fisga. Aqui é um corte de cabelo. Especificamente o corte de perfil vizinho do K-pop que está em todo lugar em Vancouver agora. Eu sempre leio como Spike Spiegel de Cowboy Bebop, o detetive de anime, a forma exata da cabeça dele atravessando os quadros. Uma vez que você vê, a fileira inteira se lê como figurantes de anime atravessando uma placa de fundo de pôr do sol.
Tempo
Esse não é um único momento decisivo. É uma janela de mais ou menos noventa segundos. As faixas de luz precisam estar saturadas o suficiente pra se ler como degradê, o sol precisa estar baixo o suficiente abaixo do horizonte pra que tudo na frente dele vire silhueta pura, e a multidão precisa estar se movendo densa o bastante pra que a fila de figuras se espace sozinha sem buracos. Dentro dessa janela fiz mais de um clique. Esse é aquele em que a fileira se leu como uma frase.
Tema
Because Zombies não é referência ao horror. É descrição de como a fila de gente se lia na tela LCD. Nenhum deles tinha combinado andar junto. Nenhum estava olhando pro outro. Eles se moviam num único ritmo do mesmo jeito, em volta dos obstáculos, na mesma velocidade, como a superfície de um único organismo. Os fogos do Honda fazem aparecer um Vancouver que não existe em nenhuma outra noite. Todos vestidos como se a roupa normal fosse a fantasia, tocados pra frente por seja lá o que os trouxe ali. Sentei na grama, acompanhei a procissão, tirei a foto, e dei nome àquilo que tinha visto.
Técnico
- Câmera
- FUJIFILM X-T5
- Distância focal
- 16mm
- Abertura
- f/5.6
- Obturador
- 1/250s
- ISO
- 500
- Data
- JUL 20, 2024
- Local
- Vancouver, Canada
- Editor
- Lightroom