
Lefteria
A História
Vancouver depois da chuva é outra cidade. O mantra é simples: vai ter reflexo. Bora caminhar.
Na Cidade do México os bueiros são mitológicos. A água come seus sapatos, você atravessa as esquinas na ponta dos pés e faz as pazes com o que a chuva decidiu deixar para trás. Em Vancouver a infraestrutura faz seu trabalho, o que significa que o truque não é sobreviver à chuva. É se aventurar no dia seguinte, quando o sol volta e a água parada ainda não se rendeu. A cidade vira um espelho temporário. Você tem algumas horas.
Naquela manhã dirigi meus passos para uma direita que já fazia tempo que eu não seguia. Morava a uma curta distância do distrito financeiro, mas raramente pegava esse rumo. Alguns dias o olho escolhe a esquina errada de propósito, só para ver o que há ali.
Terminei perto de Jack Poole Plaza, a tocha olímpica logo fora de quadro à direita. Tentei alguns ângulos por esse lado, nada caía. Depois dei a volta nesta poça. Os postes de luz do centro de convenções de cada lado, as montanhas visíveis pelo vão ao fundo, um céu nublado o suficiente para me dar estrutura de nuvens com bordas.
Um reflexo não se fotografa em pé. Você se agacha. Abaixa a câmera até a lente quase encostar na água, encontra o ângulo onde a poça se lê como espelho e não como chão molhado, e espera que alguém atravesse o quadro no segundo certo.
Algumas pessoas passaram sem mais glória. Um casal parou, posou. Fiz alguns cliques. Depois um moleque se desgrudou dos pais e saiu correndo. Braços abertos, no meio do passo, rumo ao banco de nuvens como se fosse pra valer. Era o quadro. Dali saiu o título. Lefteria. A palavra grega para liberdade.
16mm. No fio do chão, quase na beira da poça. A água vira a metade inferior da composição, um espelho horizontal limpo bem na linha central. Os postes de luz metálicos do centro de convenções se refletem na água e formam triângulos como linhas-guia que apontam para cima e para a direita, onde as cabeças do casal caem na interseção dos terços superior direita. O moleque rompe dessa âncora com movimento, no meio do passo rumo ao banco de nuvens. Preto e branco na edição porque o claro-escuro já estava ali na estrutura de nuvens e a cor não ia somar nada.
Houve várias tomadas naquela manhã. Esta é a que pousou. Você nem sempre sabe o que faz um quadro funcionar enquanto está fazendo. Às vezes você entende depois, quando já está de volta na mesa e um moleque que você não conhece corre na direção de uma nuvem, e você se lembra da palavra grega para liberdade.
Por Que Funciona
Composição
A água é o dispositivo estrutural. O horizonte, onde a praça encontra a poça, cai bem no centro, o que permite que a metade inferior espelhe a superior à perfeição. Simetria sobre o eixo horizontal.
Os postes de luz metálicos do centro de convenções de cada lado, refletidos na água, formam duas linhas diagonais que apontam para dentro e para cima. Linhas-guia que você não teve que desenhar. As duas convergem na zona superior direita, onde as cabeças do casal caem no ponto forte superior direito dos terços. Ative a espiral áurea superior direita e a espiral resolve na mesma zona. Terços, proporção áurea, as duas diagonais, tudo apontando para o casal. É a âncora.
O moleque é o contrapeso. Visualmente do mesmo peso que o casal, mas no meio do passo, o corpo lançado ao banco de nuvens. O olho pousa primeiro no casal porque cada regra manda ele pra lá, é puxado para o moleque pela massa e pelo movimento, e depois segue a trajetória do moleque para cima até as nuvens dramáticas. Três tempos: âncora, partida, céu. Dali vem o título.
Luz e Tom
Vancouver depois da chuva, o sol de volta. As nuvens tinham se aberto o suficiente para lançar claro-escuro no céu, bordas duras nos topos brilhantes, cinza profundo nos ventres. As figuras se assentam escuras contra essa claridade. A poça faz a maior parte do trabalho, repetindo céu por céu, figura por figura, poste por poste. Preto e branco na edição porque a paleta de cor já era de dois valores. A estrutura de nuvens dá o alto, as silhuetas dão o corte. Meter croma teria enfraquecido o contraste que já estava ali.
Punctum
Roland Barthes de novo. O detalhe que te fisga. Aqui é a passada do moleque, os dois pés no ar por um instante, braços abertos. Não olha para a câmera. Não olha para lugar nenhum a não ser o céu. O que quer que estivesse na cabeça dele, ele não estava carregando. Esse é o meio segundo que a fotografia isola.
Tempo
Reflexos são fáceis de encontrar. Reflexos com uma pessoa dentro no segundo certo são o pulo do gato. A passada do moleque tinha que pousar no ar, os dois pés levantados, entre o casal à direita dele e o grupinho à esquerda. Um segundo antes e a geometria ainda não tinha fechado. Um segundo depois e o moleque já estava passando do quadro. Agachado no fio da poça, você espera, e aceita que nove em cada dez vezes não acontece.
Tema
Lefteria é a palavra grega para liberdade. Na maioria dos dias eu não teria caminhado em direção alguma ao distrito financeiro. A maioria dos reflexos não tem um moleque correndo dentro deles. A maioria dos moleques que correm não escolhe um banco de nuvens como alvo. Mas naquela manhã a chuva já tinha passado, a poça ainda estava ali, o moleque rompeu a ordem, e a palavra para o que ele estava fazendo já existia em outro idioma. A fotografia se lê, para mim, como o pequeno acidente de estar na cidade certa na manhã certa.
Técnico
- Câmera
- FUJIFILM X-T3
- Distância focal
- 16mm
- Abertura
- f/5.6
- Obturador
- 1/200s
- ISO
- 80
- Data
- MAR 25, 2023
- Local
- Vancouver, Canada
- Editor
- Lightroom